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Peixe super-venenoso vira iguaria em restaurantes da Bahia
Há quase dois anos, uma criatura marinha de aparência chamativa e listras claras e escuras, grandes nadadeiras abertas em formato de leque e longos espinhos aparecia pela primeira vez na Bahia. Era o começo de uma corrida contra a proliferação de uma das maiores ameaças do bioma: o peixe-leão.
Originário do Indo-Pacífico, a espécie chegou ao Oceano Atlântico, onde passou a se espalhar como espécie invasora por ser um predador voraz e generalista ao se alimentar de pequenos peixes e crustáceos nativos, incluindo animais importantes para o equilíbrio dos recifes.
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Somente no mês de setembro, em Porto Seguro, 500 exemplares de peixe-leão foram capturados, em uma ação entre a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Causa Animal (Semac) e pescadores da Colônia Z-22 e recentemente, foi identificado no Porto da Barra, em Salvador, praia turística e que costuma receber muitos banhistas. Ao menos 10 municípios baianos já registraram a presença da espécie.
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Em poucos meses, entretanto, o peixe passou de ser uma ameaça, para se tornar uma iguaria no cardápio baiano.
O sucesso foi tamanho, que em pouco tempo, vídeos ensinando a como preparar a espécie e receitas culturais que substituem proteínas tradicionais pelo peixe-leão, se tornaram virais. O consumo da espécie, todavia, não é algo inédito; popular em outros países da América Latina, a carne do peixe já foi vangloriada por seu valor altamente nutritivo e rico em ômega 3.
O perigo do peixe-leão
Como não encontra predadores naturais eficientes no Atlântico, consegue se reproduzir e ocupar novas áreas rapidamente. Uma única fêmea pode liberar até 2 milhões de ovos por ano, segundo dados citados pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
Esses registros demonstram que estamos diante de uma invasão biológica que exige atenção e respostas imediatas. A velocidade de dispersão da espécie, associada à sua capacidade reprodutiva e à ausência de predadores naturais eficientes em nosso litoral, torna o cenário ainda mais desafiador.
A presença da espécie pode afetar espécies nativas e ambientes recifais, além de potencialmente impactar atividades pesqueiras, ao consumir peixes de interesse comercial e competir com espécies nativas por alimento.
“Outro fator preocupante é sua capacidade de ocupar diferentes ambientes, incluindo recifes de coral, estuários e manguezais, ampliando os impactos potenciais sobre a biodiversidade”, explica a bióloga marinha Stella Furlan em entrevista ao Portal A TARDE.
O peixe-leão possui espinhos venenosos – segundo o especialista, a espécie possui 18 espinhos capazes de inocular veneno -, e os acidentes podem ocorrer quando o animal é tocado, pisado acidentalmente ou manipulado durante uma captura, mesmo após a morte do peixe.
A perfuração pode provocar:
- Dor intensa;
- Inchaço;
- Náuseas;
- Cólicas;
- Fraqueza;
- Desmaios.
Casos graves são menos frequentes, mas podem exigir atendimento hospitalar. Por isso, a captura e a manipulação exigem capacitação, equipamentos e técnicas apropriadas.
O que há por trás do consumo do peixe-leão
Mas, apesar de ser uma ameaça nas águas, o peixe-leão tem se mostrado uma potencial proteína comercial com sua pele, e mais do que isso, uma iguaria única em alguns países, e mais recentemente, na Bahia.
Para o Agro em Campo, o professor de Engenharia de Pesca e Licenciatura em Ciências Biológicas da Ufal Penedo, Cláudio “Buia” Sampaio, revelou a elaboração de um livro de receitas eletrônico que contará com a participação de chefs de cozinha, e que entre os participantes está a chef Leila Carreiro, do Restaurante Dona Mariquita, que deverá preparar pratos da culinária baiana, como uma moqueca de peixe-leão.
Mas afinal, a carne do peixe-leão é venenosa?
A carne do peixe-leão pode ser consumida, desde que o animal seja manipulado e preparado de forma adequada e segura, afinal, o veneno está presente nos espinhos, e não na carne.
A bióloga marinha explica que o consumo do peixe também como uma das estratégias possíveis de manejo e controle populacional, especialmente diante da dificuldade de erradicar uma espécie que já se estabeleceu em diferentes regiões do Atlântico.
“Precisamos compreender que, neste momento, não estamos falando apenas de combater uma espécie invasora, mas também de aprender a conviver com uma realidade ecológica que já foi profundamente alterada”, disse ela.
Especialistas e entidades governamentais aconselham que os espinhos do peixe-leão devem ser retirados cuidadosamente por uma pessoa capacitada antes do preparo. Para o consumo, recomenda-se que a carne seja bem cozida, não sendo indicado consumi-la crua.
O aproveitamento para alimentação não elimina a necessidade de cuidados no manejo. Em caso de captura, devem ser seguidas as orientações dos órgãos ambientais quanto ao registro e acondicionamento do animal.
“A pesca direcionada pode contribuir para a redução local das populações, além de gerar oportunidades de aproveitamento econômico para as comunidades pesqueiras. Entretanto, essa atividade precisa ser desenvolvida com responsabilidade, orientação científica e protocolos adequados de segurança”, continua a especialista.
Cuidados e prevenções
Além disso, o consumo não deve ser confundido com uma autorização para que qualquer pessoa capture ou manipule a espécie. A participação de pescadores, mergulhadores e comunidades no controle precisa respeitar as orientações dos órgãos ambientais e das instituições responsáveis pelas pesquisas.
Stella defende que não basta incentivar o consumo, é preciso preparar as pessoas para que essa atividade seja realizada com segurança, conhecimento e responsabilidade ambiental.
“Um dos maiores problemas que enfrentamos é a falta de políticas públicas efetivas, de divulgação e de ações educativas direcionadas às comunidades costeiras. Precisamos urgentemente de campanhas de conscientização, oficinas de capacitação e programas de monitoramento, especialmente junto aos pescadores e às colônias de pesca”, disse ela.
Quando capturados, os exemplares de peixe-leão deverão ser encaminhados às instituições de ensino e pesquisa parceiras (a exemplo da UFBA e UFSB) para fins de pesquisa.
Fonte: A tarde
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