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Itambé

Itambé: Dois anos após enchente, famílias desabrigadas pela chuva aguardam novo lar e doações retidas

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A imagem de Vitória de Jesus segurando um quadro com a fotografia de seus pais em meio aos escombros provocados pela enchente do Rio Verruga, registrada em Itambé, no Sudoeste da Bahia, em dezembro de 2021, ganhou a capa do jornal Folha de São Paulo e as páginas dos principais portais de notícias do país.

Essa publicação tomou conta da internet em 29 de dezembro, quatro dias depois do fatídico episódio que culminou na destruição de ruas e casas, além de incalculáveis perdas materiais para a população do município. A chuva daquele período deixou um rastro de dor e sofrimento em um cenário que parecia de guerra. Também levou consigo os sonhos de centenas de famílias que, até hoje, sofrem com os efeitos da crise climática em suas vidas.

Naquele dia, dona Vitória iria reunir a família para celebrar o 25 de dezembro. Havia enchido a dispensa da casa com frango, lombo de porco e outros alimentos que iriam compor a ceia. Porém, a confraternização não aconteceu. Toda a compra foi, literalmente, por água abaixo, junto com vários móveis, como armários, camas, guarda-roupas. Ela só conseguiu recuperar o fogão, a geladeira e o tanquinho de lavar roupa. “O que Deus viu que eu merecia, eu resgatei”, conta.

O dia de Natal amanheceu com Itambé debaixo d’água. Dona Vitória sequer imaginava aquela situação. Para ela, a chuva que caia na madrugada tinha sido mansa, não sendo capaz de fazer estragos. Ela teve dimensão do perigo quando foi alertada pelos vizinhos sobre a força da enxurrada. Ao sair na porta de casa, a correnteza estava tão forte que parecia as ondas do mar. Os amigos da rua a retiraram do local, junto com Billy, o seu cachorro de estimação, e a maior preocupação da aposentada naquele instante. “Na casa, só tinha eu, Deus e o cachorro, mas Deus não deixou meu bichinho morrer”, diz.

Dona Vitória integra uma das 600 famílias que ficaram desabrigadas pelas chuvas em Itambé no final de 2021. Após deixar a sua residência, foi encaminhada para casa de parentes. Imaginava que ficaria por lá até as águas do Rio Verruga baixarem de nível, o que demorou para acontecer. As chuvas persistiram por vários dias. No lar provisório, ela ficaria mais protegida. Entretanto, quase dois anos depois, o que era para ser uma rápida estadia se transformou em sua morada permanente.

Dona Vitória e seu cachorro, Billy. Foto: Luiz Pedro Passos

Como sua antiga casa fica nas proximidades do rio, por segurança, ela não pode retornar ao local. Por enquanto, dona Vitória irá permanecer numa residência alugada por sua cunhada, Zeneide Chaves, a quem a aposentada paga o aluguel social concedido pela Prefeitura Municipal de Itambé às famílias que perderam suas casas devido a algum tipo de calamidade. No entanto, a proprietária do imóvel conta que o governo não realiza o repasse do benefício de forma regular, restando alguns meses para serem quitados.

O aluguel social deverá ser pago às famílias atingidas pelas enchentes do Rio Verruga até que as 115 unidades habitacionais construídas pelo Governo da Bahia em parceria com a Prefeitura sejam concluídas. Estão sendo investidos cerca de R$ 8 milhões no projeto. As obras estão atrasadas. Procurada para informar sobre a data de entrega das habitações e sobre os atrasos no pagamento do aluguel social, a Prefeitura de Itambé não quis se pronunciar.

Além da esperança pela casa nova, dona Vitória e as outras pessoas desabrigadas ainda aguardam saber qual será o destino das doações em dinheiro recebidas pelo município via PIX. Naquele período, uma grande corrente de solidariedade uniu artistas, entre outras pessoas espalhadas por todo o Brasil e o mundo, com o objetivo de ajudar os moradores da cidade que sofriam com a falta de roupas, alimentos, itens de higiene pessoal, dentre outras coisas. Foram arrecadados R$448.201,19. Até hoje, o dinheiro encontra-se aplicado em uma conta da Prefeitura, e já rendeu, até outubro de 2023, quase R$100.000,00, elevando o valor total do recurso para R$ 527.568,97.

Em 2022, o Ministério Público do Estado da Bahia recebeu denúncias a respeito do não uso dos recursos recebidos através das doações. Contudo, ao ouvir a Prefeitura Municipal de Itambé, que justificou a situação com base na discricionariedade da Administração, a Promotoria resolveu arquivar o caso. A gestão municipal, em sua defesa, alegou que ela teria liberdade para definir o melhor momento de uso das doações, conforme a sua conveniência e oportunidade.

Enquanto as doações são multiplicadas através dos juros bancários, o sofrimento dos moradores de Itambé desalojados pela cheia do Rio Verruga, em dezembro de 2021, aumenta de forma proporcional. Eles irão passar mais um Natal ainda sobre os efeitos catastróficos daquela tragédia, em um lar temporário ou improvisado, aguardando pelo próprio interesse do Poder Público em apontar uma resolução para os seus problemas. (conquistareporter)

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